Quando avisar sobre blitz? Você é Amigo ou cúmplice?

Quando avisar sobre blitz? Você é Amigo ou cúmplice?

Ironia que acontece na nossa sociedade. Reclamamos a falta de fiscalização contra maus motoristas, mas formamos grupos para avisar sobre blitz. Exigimos penas de morte para quem dirige bêbado e mata pessoas, mas procuramos saber se haverá blitz no caminho do bar ou da festa. Este tipo de comportamento não condiz com os tempos atuais.

Usamos como exemplos os inabaláveis, os redimidos e os reintegrados, não nascidos santos. Daí ser inaceitável e injustificável qualquer desculpa para divulgar uma blitz. As desculpas são as mais esfarrapadas possíveis: ajudar a um amigo que bebeu, ajudar um amigo que esqueceu seus documentos, ajudar a um amigo que não pagou o licenciamento, ajudar ao amigo que está sem grana e por isso não pode pagar o licenciamento, enfim, uma série de desculpas para justificar o samaritaníssimo de avisar sobre blitz.

Quando você pensa ser um bom samaritano, está sendo na realidade um fariseu e por isso iguala-se aos marginais. Deixa, portanto, a categoria dos eticamente corretos e passa a ser do time dos potencialmente corruptos, tão semelhante quanto, os réus da lava-jato. Crime é crime, não importa o tamanho ou a gravidade. A gravidade ou o requinte de perversidade e ainda, a motivação determinam o tamanho da pena; apenas. E você, neste caso, passa a ser pelo menos cúmplice.

Quando trato de cumplicidade afirmo que ao avisar sobre blitz você ajuda ao bandido que está na rua tentando praticar um assalto – que pode ser contra você ou contra o mesmo amigo que você tenta avisar da blitz. Ajuda ao bandido que está transportando droga a abastecer o ponto de venda. Ajuda a quem carrega armas no carro a praticar crimes e produzir balas perdidas. Ajuda ao bêbado que poderá esmagar um parente seu contra um muro. Ajuda aquele que não tem habilitação a produzir um acidente onde um motociclista será o próximo amputado no trânsito. Avisar sobre blitz tem este lado, também.

O propinoduto que você ajuda a alimentar

Uma argumentação que muitos falam é a indústria das propinas. A polícia pede propina para livrar você de uma multa ou de uma infração grave. Mas eu te pergunto: – Se você estiver correto, seu veículo em dia, você motociclista equipado, respeitando a sinalização e as regras da via, quais serão as chances de você vir a ser multado?

Vamos a outro tipo de situação. Agora é você que está com documentação errada ou bebeu. Ai oferece propina ou recebe uma proposta da polícia para dar o “jantar” deles. Neste momento você além de criminoso será um corruptor, digno de estar num acordo de delação premiada da Lava-Jato e a estar também em frente ao juiz Moro. Imagina o que seus amigos irão dizer de você se o encontrarem numa passeata de manifestação contra a corrupção e a favor do impeachment da presidente? O cara corrompe e paga propina para livrar a cara e está numa passeata contra a corrupção. Fariseu, fariseu! Para dar certo, este país deve ser, não apenas da boca para fora, mas do coração para dentro.

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Faça o sua parte

Se você fizer a sua parte, dificilmente será pego de surpresa. Se errar, pague pelos seus erros. Não dê propina e não divulgue blitz. O Brasil melhora se o DNA do brasileiro melhorar. Somos um povo solidário, mas permissivo quando se trata de nós mesmos; de nossos interesses. Carregamos no nosso DNA uma herança dos milhares de aproveitadores que foram enviados a este país para pagar pelas suas penas e aqui só encontraram a impunidade. Estes aproveitadores e criminosos proliferaram e com a ajuda dos governantes criaram toda essa capa de corrupção que cobre todo este país.

Não avise sobre blitz

Quer ser útil? Crie um grupo de WhatsApp para lembrar seus amigos dos pequenos esquecimentos que podem resultar em multas. Busque um convênio com taxistas e crie um grupo chamado Bêbado-Entrega. E se seu amigo está sem grana para pagar o licenciamento ajude-o pagando o emplacamento em vez de avisar sobre blitz. Ajudando-o você será solidário e amigo. Avisando sobre blitz você será cúmplice.

Texto e imagens: Luís Sucupira

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